Aos 17 anos, Lara Roque é já um nome de relevo no panorama do atletismo regional e nacional. Aluna do curso de Ciências e Tecnologias da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, a jovem atleta concilia o rigor dos estudos com uma carreira desportiva que começou quase por acaso, há cerca de uma década. Foi no 3.° ano de escolaridade, após participar numa prova de desporto escolar, que despertou para a modalidade que hoje define a sua rotina.
Representante da Associação Académica da Bela Vista (AABV), Lara encontrou a sua vocação nas distâncias de meio-fundo, com particular preferência pelas provas a partir dos 1500 metros.
O seu palmarés recente espelha o talento e a dedicação: no último ano, sagrou-se campeã nacional de corta-mato escolar e conquistou o título de campeã nacional nos 3 km sub-20.
Somam-se ainda os vice-campeonatos nacionais nos 3 km sub-18, 1500 m sub-18 e 2000 m obstáculos sub-18.
Estes resultados não surgem por acaso. A rotina de Lara é marcada por uma exigência elevada, treinando seis dias por semana, com jornadas que chegam a incluir treinos bidiários.
Segundo a atleta, o atletismo é uma modalidade que exige “muita disciplina e sacrifício”, valores que aplica na busca constante pela superação em cada treino e em cada competição.
Nesta caminhada, Lara destaca o papel fundamental da sua rede de apoio, composta pelos pais, pelo treinador e pelos colegas de equipa. Com o olhar posto no futuro, a jovem mantém os objetivos claros: pretende continuar a evoluir nas pistas, mantendo sempre o equilíbrio necessário para conciliar o desporto de alto rendimento com o percurso académico.
Segue-se a entrevista onde Lara Roque partilha a sua experiência, os desafios do quotidiano e as suas ambições para o futuro no atletismo.
1 – Lara, começaste no atletismo no 3.° ano, após uma prova escolar. Lembras-te do que sentiste nessa primeira corrida que te fez querer ficar na modalidade até hoje?
Lara – Na minha primeira prova, estava bastante nervosa, até porque era muito nova e tudo era completamente novo para mim. Não fiquei assim tão bem classificada, penso que terminei em 6° lugar, mas, sinceramente, o resultado não foi o mais importante naquele momento.
O que realmente me marcou foi a sensação de estar a competir e de chegar á meta sabendo que tinha feito o melhor que conseguia.
Gostei muito de correr, e foi nessa experiência que percebi que queria continuar a treinar, até mesmo o meu professor desse ano dizia que eu tinha jeito e que devia experimentar o atletismo. Aquela primeira corrida despertou em mim algo especial e acabou por ser o início de uma coisa que continua até hoje.
2 – Escolheste o meio-fundo e os obstáculos como as tuas áreas de eleição. O que é que te passa pela cabeça durante os 1500 metros ou os 3 km para manteres o ritmo e a concentração?
Lara – Eu identifico-me mais com estas distâncias mais longas, porque exigem uma estratégia e mais controlo da prova. Já experimentei outros tipos de provas quando era mais nova, mas sempre preferi as mais longas.
Ao longo da corrida, concentro-me em cumprir os ritmos planeados em conjunto com o meu treinador, e tento manter a respiração o mais controlada possível e gerir o esforço até ao fim, para que no final possa dar tudo o que ainda tenho para dar.
Um bom aquecimento antes da prova e foco total antes da partida também são muito importantes para fazerem toda a diferença numa boa ou má prova.

Entre os livros e a pista: a determinação de Lara Roque no Meio-Fundo
3 – Foste campeã nacional de corta-mato escolar. O que é que sentes que distingue uma prova no barro e na relva de uma prova de pista?
Lara – Gosto muito das duas provas, embora sejam bastante diferentes. No corta-mato, sinto-me menos nervosa, talvez porque não há tanta pressão em relação aos tempos e às marcas. Como o terreno é irregular e as condições também variam, a prova acaba por ser mais imprevisível e isso faz com que eu me foque mais no esforço e no percurso do que propriamente no relógio.
Já na pista sinto uma pressão diferente, porque tudo é mais controlado e os tempos têm um grande peso. Há uma expectativa de melhorar marcas e cumprir objetivos que tenha, o que torna a competição muito mais exigente. Ainda assim, gosto desse desafio e da sensação de tentar superar-me em cada prova.
4 – Treinas seis dias por semana, às vezes duas vezes por dia, e estás num curso exigente como Ciências e Tecnologias. Qual é o teu segredo para gerir o tempo e não falhar em nenhuma das frentes?
Lara – Não acredito que exista propriamente um segredo. O que existe é muita organização, disciplina e também responsabilidade.
Sei que estou num curso exigente e que o atletismo também requer muito de mim, por isso tento gerir o meu tempo da melhor forma possível, aproveito ao máximo os tempos livres para estudar e evito deixar a matéria acumular.
Há períodos mais difíceis, especialmente em época de testes ou competições importantes, mas procuro sempre manter o foco e dar o meu melhor em ambas as coisas.
Nem sempre é fácil, mas, quando se gosta do que faz, encontra-se alguma forma para conciliar tudo.
5 – Mencionaste que o atletismo exige “sacrifício”. Qual foi o momento mais difícil que já enfrentaste na pista e como é que o apoio da tua equipa e família te ajudou a superar?
Lara – Um dos momentos mais difíceis no atletismo foi quando ainda praticava marcha atlética, que é uma disciplina do atletismo.
Em várias provas, acabava por ter lesões e, numa competição muito importante para mim, senti-me novamente limitada por essa mesma lesão, mesma dor. Não consegui dar o meu máximo, o que foi bastante difícil.
Depois desse momento, percebi que precisava de tomar uma decisão e acabei por deixar a marcha, porque as lesões eram cada vez mais constantes.
Foi uma fase complicada, quando passei várias semanas e até meses sem treinar, com muitas sessões de fisioterapia.
O apoio dos meus pais e do meu treinador foi muito importante nesse período. Ajudaram-me a manter a motivação e a acreditar que podia regressar mais forte noutra disciplina. Esse momento ensinou-me muito sobre a superação.
6 – Como foi o apoio da tua familia, professores e amigos, em relação a seguir o seu sonho com o esporte?
Lara – Sempre senti muito apoio de todos. A minha família está sempre presente, incentivando-me a continuar e acompanhando-me em todas as provas, mesmo quando são na outra ponta do país.
Os meus professores também demonstram compreensão, sobretudo porque já tive de faltar várias semanas devido a estágios e competições.
Os meus amigos entendem e respeitam a minha rotina de treinos e motivam-me sempre.
Sentir esse apoio dá-me ainda mais força para continuar o meu percurso no atletismo.
7 – Como te imaginas daqui a cinco anos? Onde esperas que o atletismo e os teus estudos te tenham levado?
Daqui a cinco anos, imagino-me a continuar a evoluir no atletismo e a competir a um nível alto, sempre com o objetivo de melhorar as minhas marcas e ganhar mais experiência em competições importantes. Quero continuar a crescer como atleta, mantendo a mesma dedicação e disciplina que tenho hoje em dia.
A nível académico, ainda estou a descobrir exatamente que área quero seguir, mas estar no curso de Ciências e Tecnologias abriu-me várias possibilidades e quero tomar uma decisão de que tenha a certeza, escolhendo algo que realmente goste e no qual me veja a longo prazo.
Vejo o desporto como uma parte essencial da minha vida e, independentemente do caminho profissional para o qual vá, espero que o atletismo continue a acompanhar-me sempre.

A história de Lara Roque é a prova de que o talento, quando aliado à disciplina e a uma rede de apoio sólida, não conhece limites. Num mundo que exige resultados imediatos, a jovem atleta recorda-nos de que o sucesso se constrói passo a passo, treino após treino, entre o rigor dos livros e o desgaste das pistas.
O seu percurso não é apenas uma sucessão de medalhas, mas sim um exemplo de como a paixão e o sacrifício podem transformar uma simples prova escolar numa carreira de excelência.
Que o seu fôlego e determinação sirvam de inspiração para todos os jovens que procuram conciliar os seus sonhos com as exigências do quotidiano.