Os medos da discriminação, da violência, do escuro ou até de insetos já não são só da Maria, do João ou da Vanessa. Foram partilhados com todos e, esta terça-feira, 24 de Março, até saíram à rua. “De mãos dadas contra o medo”, centenas de alunos de várias escolas do concelho desfilaram por Faro, naquela que foi «uma verdadeira aula de cidadania ao ar livre».
A atividade, que se irá repetir em vários concelhos do Algarve e de todo o país, decorreu no âmbito do encerramento da Bienal Cultura Educação #2 do Plano Nacional das Artes (PNA), que começou em Setembro de 2025 e desafiou milhares de alunos das escolas portuguesas a partilharem os seus medos.
No Algarve, as ações Em contramedo dão forma a este desafio, trazendo para o espaço público os medos identificados e trabalhados por crianças e jovens ao longo da Bienal.
Através de percursos, performances e intervenções artísticas, as escolas tornam visíveis os processos criativos desenvolvidos em articulação com os seus territórios e comunidades.
Com cartazes coloridos, palavras de ordem e muita convicção, 700 alunos dos Agrupamentos de Escolas Afonso III, João de Deus, Montenegro, Pinheiro e Rosa e Tomás Cabreira desfilaram ontem entre a rotunda do Liceu e o Jardim Manuel Bivar.
Isabel, 12 anos, aluna da Escola de Montenegro, não tem dúvidas de que esta iniciativa a ajudou.
«Estas atividades ajudaram-me muito a falar sobre os meus medos, a perceber também os medos das outras pessoas e a entender o que posso fazer para os combater. Além disso, acho que é uma atividade muito gira para socializar», disse ao Sul Informação.
As colegas, Vitória e Isadora, acham o mesmo.
«Nestas atividades, eu posso expressar o que sinto com os outros e posso falar sobre isso», afirmou uma das jovens do 6.º ano, acrescentando que, em casa, falar com os pais sobre os seus medos também a ajuda no dia a dia.

No desfile, participaram não só alunos, mas também dezenas de professores, auxiliares educativos e pais – que devido à importância da temática se quiseram associar a este momento.
«O Português e a Matemática são importantes e dão-lhes as bases de estudo, mas depois há todo um mundo envolvente que não se aprende só aí e por isso estes projetos são tão importantes para que haja uma articulação com o mundo que os rodeia e a vida fora das aulas», destaca Teresa Nobre, em representação da Associação de Pais da Escola de Montenegro.
Depois de uma caminhada de mais de um quilómetro, os alunos chegaram ao Jardim Manuel Bivar e foi lá, junto ao coreto, que apresentaram performances de percussão, música, dança e até poesia.
No meio da multidão, os cartazes davam nas vistas, mas houve também quem levasse máscaras cheias de significado.
«Esta máscara representa a minha resposta ao medo e todas as partes têm o seu próprio simbolismo. A coroa, por exemplo, representa o sol que ilumina a nossa vida quando temos medo. A cara branca representa a paz e a beleza que nasce das adversidades de cada um e estes caminhos dourados significam a vida a fluir mesmo quando temos medo. As flores é o florescer após o medo e o meu significado favorito são estas pérolas que significam a sabedoria que é adquirida com a dor e com o medo», explicou Enzo da Fonte, aluno do 10º ano de Artes da Escola Secundária João de Deus.

Organizada pelas equipas dos Planos Culturais de Escola e de Cidadania e Desenvolvimento dos agrupamentos de escolas, em articulação com as comunidades educativas e redes de parceiros locais, este exercício quis mostrar como «a cidadania pode ser ativa e viva».
«Os alunos estão a aprender que podem vir para a rua, que têm voz e palavra e acho que isso é pedagogicamente muito importante num tempo em que não nos ouvimos muito e em que a desinformação é grande», frisou ao nosso jornal Ana Bela Conceição, coordenadora regional do PNA.
«O tema era desafiante, mas os alunos mostraram como era importante. Os alunos apresentaram muitas propostas artísticas durante estes seis meses e decidimos terminar tomando a rua e fazendo este manifesto poético contra o medo, chegando também assim a mais pessoas», disse ainda.
Inês Férin destacou também o caminho que tem sido feito para que toda a comunidade escolar perceba «o potencial que as artes e a cultura têm na escola, no ensino, no descobrir de cada um de nós, do outro e do mundo e que podemos ir por outros caminhos para construir um futuro melhor».
Atualmente, o Plano Nacional das Artes só não está em duas escolas do Algarve.
Fotos: Mariana Carriço | Sul Informação